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  • Maíra Oliveira

Black is King: a história é o seu futuro

Atualizado: 4 de Ago de 2020

“Seja bem-vindo a historia de si mesmo: um dia você se encontrará de volta onde começou, mas mais forte.”

Escrito e dirigido por Beyoncé com vários colaboradores - majoritariamente negros -, "Black Is King" nos lembra que as vidas negras não começaram na escravidão, e que nem os séculos de desumanização conseguiram apagar nosso passado rico. "A história é o seu futuro", como anuncia Beyoncé no início. O álbum visual, é uma celebração a amplitude e a beleza da ascendência negra que mesmo chegando em meio a conversas em torno da brutalidade policial e do racismo no mundo, não vem para aplacar o desejo de quem acordou antirracista ontem.


A produção começou no ano passado como uma peça complementar de “O Rei Leão”, que Beyoncé produziu, além de estrelar como Nala, ao lado de Donald Glover, como Simba. Mas em 1:25h não apenas Beyoncé retoma a nossa história negra diaspórica, desafricanizada pelo ocidente, como atualiza o próprio “O Rei Leão” que em pleno 2019 cismava em recontar em África a mesma história branca inspirada em Hamlet.


Do ponto de vista da narrativa “Black is King” narra a jornada de um jovem rei africano (@iamfjofficial) que à medida que seus ancestrais o guiam, encontra seu próprio caminho no mundo, honrando seus antepassados e seguindo seu legado. Sobre isso Bey disse: "os pretos são régios e ricos em história, propósito e linhagem".



Sublinhada pela homenagem ao rico tecido da herança cultural e ancestralidade da diáspora africana de onde viemos, esse sentimento é refletido ao longo do filme através de uma infinidade de referências simbólicas zulu, massai, het heru, mami wata... desde moda e pistas visuais até a inclusão de idiomas do continente, e como tudo isso nos conecta hoje em dia, fazendo inclusive um singelo aceno ao pan-africanismo, quando na metade do “Black Is King”, uma multidão de homens negros segura uma bandeira americana estilizada em preto, vermelho e verde.


Participações de Pharrell Williams, Tiwa Savage, Shatta Wale, WizKid, Tierra Whack, Yemi Alade e Jessie Reyez, e em "Brown Skin Girl", Naomi Campbell, Lupita Nyong'o e Kelly Rowland - em uma bela homenagem à mulher negra - dão o recado: pretos no topo sim, mas sozinhos ou rivais, nunca.


Como nada é simples em ser artista negro no mundo, em África desde o lançamento do filme, a discussão é sobre uma possível apropriação cultural pela diva pop. Discussão espinhosa e necessária, desde que consciente que o filme não é sobre a história do continente e sim sua relação com os em diáspora forçada, e que roteiristas e diretores negros africanos e negro-diaspóricos, como o ganês Blitz the Ambassador (diretor de “O enterro de Kojo”, que tem signos em comum com "Black is King") assinam com Bey a direção e o roteiro do filme, e ainda, que não seria uma crítica tão ferrenha se a artista em questão também não fosse negra. A régua da moral sempre recai mais pesada sobre nós.


Muitas outros comentários, resenhas, visões são possíveis sobre "Black is King", (cada pedrinha brilhante, cada "estampa de oncinha", cada orixá representado, cada frame tem um propósito, um simbolismo marcadamente preto), em especial sobre os homens negros - a quem Bey dedica o filme através do filho, Sir Carter - e convocação na passagem ao legado, mas espero que vejam com seu próprios olhos, nem tudo pode ser dito com palavras.


Veja Black is King aqui.


Para conhecer mais os artistas que assinam essa obra-prima visite o site Mundo Negro aqui.


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