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  • Maíra Oliveira

"Esse cabelo" - a Literatura como reparação

A vida é na verdade um álbum: registros imprecisos, colagem da memória ou a 'recordação da vida', como diria Nietzsche.


E é essa recordação da vida que “Esse cabelo” (Leya, 2017) de Djaimilia Pereira de Almeida vai nos desenhando, a cada ciclo capilar de Mila (versão ora ensaística ora ficcionalizada da própria escritora).

Revelando através do seu olhar “imigrante”, a cartografia de Lisboa, de seus violentos salões de cabeleireiros, dos pequenos centros comerciais de vitrines e escadas rolantes, das varandas e seus varais sempre cheios... memórias atravessadas por uma Angola de vivência interrompida na primeira infância de Mila, em uma espécie de déjà vu particular da pessoa de família branca e negra.

Esses territórios emaranhados se reconstroem ao passo que Mila se constrói, lidando com as frustrações dos penteados que no dia seguinte - se não no mesmo - se desfazem, tal qual a imagem que fazem de si: uma angolana "falsa" que vai trançando aos nossos olhos sua identidade que não cabe em país nenhum senão no cheiro do cabelo da vó Lúcia ou nos cabelos de vó Maria, lavados pelo marido, aos sons de "cuidado" - como quem faz amor.

Mila nos desenha seu próprio país: a ancestralidade.


Mas não o faz sem dor, pois “a ata do [nosso] esquecimento é distintamente [branco] portuguesa” e omite aquilo que não pudemos ser enquanto mulheres negras em diáspora, ainda que a linguagem fluida e leve do livro faça olhos colonizados ignorarem a violência do racismo sofrido muitas vezes no seio familiar de Mila.


Mulheres negras lidam com a "custódia [forçosamente] compartilhada" de seus cabelos desde que se lembram de ter cabelos, e a forma como lidamos com isso molda a nossa vida. Parece exagero, né? Mas “a transmutação da estética em moralidade, do secador em juiz, da falta de jeito em fatalismo, do penteado abortado, em culpa, danação", moldaram a auto-estima de algumas gerações.

Livros como “Esse cabelo”, “Sem perder a raiz” (Nilma Lino Gomes), “Americanah” (Chimamanda Ngozi Adichie), “Meu crespo de rainha” (bell hooks), “Que cabelo é esse, Bela?” (Simone Mota), entre muitos outros bem como a própria presença de Djamilia na FLIP (branca até não poder mais), a existência das blogueiras crespas, de atrizes como Taís Araújo e seu cabelo natural na novela das 21h… hoje constroem gerações mais fortes. Então, não Djamilia, não é apenas banal um romance onde o cabelo é personagem e fio condutor da memória ancestral. E bem, ainda que fosse banal, há uma confluência política: o entendimento da negritude existente na beleza e leveza dos cabelos que crescem pra cima em teima com a gravidade do racismo.

“Esse cabelo” é literacura, é reparação.

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