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  • Maíra Oliveira

Lovecraft Country e a história nociva da vida real em narrativa fantástica



A série da HBO, criada por Misha Green (creditada como roteirista em todos os 10 episódios), é baseada no romance homônimo de Matt Ruff, que por sua vez, se inspirou no trabalho de H.P. Lovecraft - o escritor asqueroso do início do século 20 cuja descrição do mal cósmico sem limites parece ao mesmo tempo sobrenatural e profundamente americano (no mau sentido).

Lovecraft Country narra a busca de Atticus Freeman (Jonathan Majors) - nerd e tímido, veterano da Guerra da Coréia - pelo pai desaparecido numa America segregada dos anos 1950, e o encontro dele com alguns de seus próprios demônios. O que no início pareceria mais uma sessão da tarde - em termo de estrutura narrativa- , onde Atticus é acompanhado por Leti (Jurnee Smollett) e seu tio George (Courtney B. Vance), um editor de um guia semelhante ao Green Book e um aficionado por pulp fiction, ganha várias camadas narrativas interessantes quando monstros emergem.

Esse relevo dado por Misha à ficção especulativa de Ruff, é construído principalmente pela enormidade de referências* e pela manipulação dos gêneros Horror - aquilo que dá asco - e Terror - aquilo que sugere medo através das lacunas que nosso inconsciente preenche -, criando uma narrativa metafórica que além de entretenimento entrega revisionismo histórico.

Misha Green flexibiliza a palavra ‘monstro’, borrando os limites que tendem a separar o drama ‘direto’ da ficção científica e da fantasia, aplicando-a à vida interior dos personagens principais, e àquilo que são sujeitados pelas opressões sociais, particularmente o racismo, argumentando que, para cidadãos negros, a América não é um problema a ser resolvido, mas um monstro a ser superado.

As relações étnico-raciais têm sido um território em que a HBO se aventurou recentemente. Mas enquanto na primeira temporada de True Detective e Watchmen, raça pode ser visto como “tema”, em Lovecraft Country, raça informa cada cena e relacionamento, mesmo sendo menos pretensiosa e até mesmo, mais popular que as citadas. Ainda é cedo para dizer se é uma melhor estratégia narrativa, mas o que eu (aficionada e criadora de narrativas negras) quero é mais: mais Lovecraft, Watchmen, etc. porque sem diversidade entres as nozes negras não há reparação.

Ainda não sabemos quais as motivações reais dos personagens principais, mas quanto a atuação, se você ainda não viu Da 5 Bloods, Jonathan Majors será uma grata descoberta, assim como Jurnee Smollett. Jurnee trabalhou com Green em Underground, e é a coringa da história, atuando na segunda melhor sequência da série até então: no terceiro episódio, Leti usa um taco de beisebol para quebrar os carros de agressores racistas, como um número de dança e uma sequência de ação, tão fascinante quanto catártico.

Qual seria a melhor sequência, então? A marqueteira e nem um pouco boba HBO, liberou o primeiro episódio no Youtube, então, acho que vocês vão ter de ver!



*Pauta pro próximo texto


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